Especial Contos de Halloween – A Casa

por há 1 ano e 549 leituras

Minha família sempre foi religiosa, assumo isso.

Nunca entendi o fascínio deles por cruzes e imagens em gesso de um homem morto há quase dois mil anos. Nem sequer sabe-se se ele realmente era assim.

Mas o que aconteceu comigo me fez pensar realmente na sua existência:

Estava eu em minha casa recentemente adquirida, em uma noite chuvosa, digna de um livro e uma xícara fumegante de café. Sentei no parapeito da janela para admirar o tempo.

Havia comprado a casa por uma pechincha, algo relacionado a morte do dono que não havia herdeiros. Ela, inclusive, veio mobiliada, o que foi um ótimo presente para um universitário que não tem dinheiro nem para pagar as cópias da faculdade.

Não que eu seja pobre, longe disso, tenho até um fundo na poupança, mas não sou abastado.

Mudei-me para lá esta tarde, sozinho. Aproveitando a minha solidão que mais considero liberdade, comecei a circular pela casa e ver a quais portas as chaves pertenciam.

Observei uma chave peculiar, totalmente diferente das quais conheço. Ela tem um furo no meio e suas laterais são gravadas com símbolos parecidos com asas. Não achei uma porta correspondente.

A casa tem um diferencial: a cada peça tem muitos espelhos, todos em ângulos que refletem a si mesmo. Lembro de ter lido algo no contrato onde o antigo proprietário pediu que deixasse assim. Mas, como ele faleceu, quem ordena sou eu!

Entrei no meu quarto e observei a organização dos espelhos daquela peça. Apenas por birra, virei o espelho que se direcionava à poltrona e o direcionei à minha cama.

Depois de admirar o quarto novamente, fui deitar-me, com as luzes apagadas e todas as cortinas fechadas. As cortinas eram pesadas, antigas, de veludo em uma tonalidade escura de vermelho.

Verifiquei as horas no meu celular, eram 01h42min.

Virei-me para o lado e apaguei quase que imediatamente.

Um clarão invadiu o quarto, algo como uma luz fluorescente, perturbador aos olhos que estavam acostumados com a escuridão. Levantei lentamente, ainda atordoado pelo sono. Chequei as horas: 02h59min.

Quando o relógio virou para 03h00 um raio retumbou perto, fazendo o chão estremecer e levando minha atenção diretamente à uma sombra que tomava forma no espelho que eu havia mexido. Fiquei paralisado, mas atento. Algo estranho começou a se formar e, em seguida, surgiu a imagem de um senhor de idade, com a testa enrugada e com um dedo cortado, com o qual escreveu no espelho “corra”, utilizando seu sangue. Me pus de pé diante do espelho e comecei a examinar. A parte superior tinha a inscrição de duas asas e o formato que se encaixava perfeitamente a chave. Levei a mão até o bolso da minha calça de flanela e apanhei a chave, colocando-a na abertura do espelho. Ouviu-se um pequeno clique e o vidro do espelho moveu-se um pouco.  Empurrei-o para o lado e um portal abriu-se.

-Olá? – Chamei.

Silêncio total.

-Olá-á? – Insisti.

Fui respondido novamente com o silêncio. Decidi que iria entrar. Peguei meu celular, as chaves e uma vela para iluminar e segui meu caminho.

Dentro do espelho abriu-se um corredor de pedra, algo como uma passagem secreta antiga. Não me admirei, a casa devia estar ali desde antes de Cristo.

O corredor seguiu íngreme e apertado. Praguejei por não ter pego minha bombinha para asma.

Em um certo ponto abriu-se um grande espaço onde vi uma sala. Um homem estava sentado em uma cadeira de costas para onde eu estava. Mais a frente estavam três portas, ambas fechadas. Nas laterais tinham janelas e, acima delas, tochas em estilo medieval.

-Senhor? – Chamei o homem que estava sentado. Ele não respondeu.

Dei um passo a frente e pude observar outra porta à esquerda, mais iluminada que as outras. Segui em direção a porta e coloquei a cabeça pelo vão. Uma sala com janelas, uma lareira e outro homem sentado de costas para mim. Parecia ser o mesmo que estava na outra sala: gordo, careca e com a cabeça enrugada do tempo.

Olhei para trás e tive uma surpresa: o homem não estava mais na sala que estava há poucos minutos. Ele estava na sala que eu estava observando agora. Um arrepio subiu pela minha coluna até a cabeça, deixando os pelos do meu braço eriçado.

Voltei para a sala que estava e segui minha caminhada pelo casarão.

Abri a primeira porta e fui supreendido por uma parede de tijolos com meu nome escrito em algo vermelho, deduzi ser sangue.

Ao abrir a segunda porta deparei-me com o vazio. Não que não tivesse nada lá, mas não havia chão nem teto, e muito menos paredes ou alguma outra coisa.

Na terceira porta vi um corredor, muito semelhante ao que recém havia passado.
Seguindo por esse corredor,cheguei em uma sala quase idêntica a outra: três portas principais, uma porta lateral e uma cadeira no meio da sala. O diferencial era que, nessa sala, não havia ninguém.
A porta lateral estava escancarada, com muita luz no seu interior. Coloquei minha cabeça um pouco para dentro para observar e vi um casal sentado. O mesmo homem da sala anterior e uma mulher, até então desconhecida.

Dei um passo adiante e a mulher levantou-se de súbito. Dei um pulo.
Mais um passo e ela virou o rosto para mim, suas feições sérias, como se houvesse feito algo perverso recentemente. Ela era tão branca que parecia irreal, exceto por seu batom extremamente vermelho, que corri ao lado de sua boca como se fosse líquido.
Mais um passo e ela presenteia-me com um sorriso macabro, o qual, novamente, me arrepia inteiramente. Olho para o homem, seu pescoço pendeu para o lado. Olho novamente para a mulher epude observar, ao seu lado, o cano de uma espingarda, sujo de sangue. Conclui que, seu batom, na verdade, era sangue de um último beijo apaixonado. Saí da sala correndo e abri as portas. Dessa vez a correta era a primeira.

Logo ao abrir me deparei com a mulher da sala anterior. Bati a porta e virei-me para trás, afim de voltar para o meu quarto e nunca mais pôr os pés ali. Tive uma enorme surpresa: a sala tinha apenas quatro portas. As três principais e a lateral que havia saído. A porta pela qual havia chego ali havia sumido, sem deixar rastros.

Voltei-me para a porta e abri ela novamente. A mulhernão estava mais ali. Segui meu caminho adiante. Na próxima sala não havia a cadeira e, na sala lateral, o corpo do homem estava estendido no chão e a mulher estava tomando chá com outra mulher. Um passo e as duas olharam para mim com um sorriso crue no rosto.

Segui caminhando e conforme iam se passando as salas, cenas diferentes se formavam diante dos meus olhos. Toda a história do casarão contada em cenas.

Após muito caminhar, cheguei à uma sala onde eu estavana porta e no meio da sala, ao mesmo tempo. A mulher apontava a arma para minha cabeça. Dei um passo adiante e ela vira-se para mim. Para o verdedeiro eu. Tento gritar, mas estou tanto tempo sem falar que minha voz sai estranha.

Volto para a sala principal e vejo-a novamente com meu outro eu. Ela aperta o gatilhoda arma e eu dou um pulo. Sinto me sangue na garganta e caio no chão. Meu corpo começa a formigar. Posso ver meu jovem corpo de 21 anos estirado no corpo. Sinto-me aprisionado.

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Lucas chegou no casarão que havia ganho. Já era noite e estava cansado, queria deitar e descansar. Prometeu a si mesmo que iria arrumar tudo no outro dia.
Ao entrar no quarto ficou abismado com a quantidade horrível de espelhos. No caminho para a cama, acidentalmente, esbarra em um e o tira da posição que estava.

Deita-se na cama e apaga imediatamente, sendo acordado apenas por um clarão na madrugada. Estava uma noite quente, mas mesmo assim um raio seco corta o céu.

Lucas levanta-se e enxerga uma pequena imagem refletida no espelho. Um jovem em seus 20 e poucos anos aparece com um rosto horrorizado. “Corra” ele escreve com seu sangue no vidro. Percebo um vão no espelho e vou atrás dele, querendo-o ajudar. A porta atrás de mim fecha.  Estou perdido.

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